sábado, 18 de julho de 2026

OPINIÃO...RUI BISCAIA (UM DOS NOSSOS MENINOS DA NAVAL) PROFERE CONFERÊNCIA NA LIGA PORTUGAL BUSINESS SCHOOL

RIVAIS, NÃO INIMIGOS

Recentemente, ao procurar informação sobre o campeonato do mundo de futebol que está a decorrer, deparei-me com uma notícia sobre a final da Conference League que salientava o melhor e o pior da rivalidade no desporto. Por um lado, a alegria de centenas de adeptos a celebrar cordialmente a presença das suas equipas na final. Por outro, os confrontos violentos entre alguns adeptos na véspera do jogo. Esta realidade deve fazer-nos pensar sobre qual o desporto, e em particular o futebol, que queremos.

As rivalidades são fundamentais no desporto, mas podem ser prejudicais quando são incompreendidas e mal geridas. Uma rivalidade é uma relação competitiva intensa entre duas ou mais equipas, atletas, clubes ou adeptos. Caracteriza-se por comparação constante e enviesamento em relação ao ‘nosso’ grupo. Por exemplo, favoritismo do ‘nosso’ clube e preconceito em relação ao ‘outro’.

A proximidade geográfica, competição frequente, equilíbrio histórico, disputas por títulos, episódios marcantes, perceção de injustiças, diferenças culturais ou competição por talento podem atenuar ou intensificar as rivalidades. Assim, um clube pode ter rivais com graus distintos de intensidade e a rivalidade pode ser assimétrica. Ou seja, um clube pode considerar outro como o principal rival sem que esse sentimento seja recíproco.

No desporto, as rivalidades têm imensas vantagens. Para os adeptos, aumentam a emoção, o interesse nos jogos e a identificação com o clube. Para os clubes, ajudam a aumentar as assistências e receitas associadas, o engagement dos adeptos e o valor comercial das competições. Com isto aumenta-se o valor também para as televisões, patrocinadores e outros skakeholders.

Sem rivalidade, o desporto perde intensidade emocional e capacidade mobilizadora. Mas quando um rival é transformado num inimigo, todos perdem. Insultos, confrontos físicos e verbais, vandalismo e outros comportamentos antissociais fazem os clubes pagar multas avultadas. Estas situações prejudicam também a imagem de clubes, ligas e patrocinadores, afastam famílias e adeptos moderados, penalizam o ambiente nos eventos e momentos envolventes, e reduzem valor para os stakeholders.

O desporto é, por natureza, um fenómeno cocriado. Nenhum clube produz futebol ou outro desporto sozinho. Os eventos implicam interação entre equipas, adeptos, árbitros, ligas, comunicação social, patrocinadores e outros stakeholders. A força de um clube depende, em larga medida, da existência e da força do “outro”. Por isso, a competição dentro e fora do campo deve andar de mãos dadas com a coopetição. Ou seja, os clubes devem simultaneamente competir e cooperar para criar valor partilhado.

Os rivais não podem ser inimigos, pois um inimigo é uma pessoa ou entidade que sente ódio, hostilidade e deseja mal ao ‘outro’ para lá da competição desportiva. Esta ideia é contrária ao que o desporto deve ser. Um rival não é inimigo, mas sim um cocriador de valor no ecossistema desportivo. Além disso, as rivalidades ajudam a reforçar o sentimento de pertença dos adeptos e a definir identidades coletivas. A vitória perante um rival tem mais significado, um dérbi sem tensão simbólica tem menos interesse e um campeonato sem rivalidades perde valor.

Importa assim que a rivalidade, no seu verdadeiro sentido, seja promovida e cuidadosamente gerida. Clubes, ligas, treinadores, atletas, comunicação social e patrocinadores têm responsabilidade na forma como comunicam antes, durante e após os eventos. É importante reconhecer paixão, história e diferenças, mas também mostrar respeito pela competição, ter responsabilidade e consciência do papel do desporto na sociedade.     

Naturalmente, o cenário ideal e o possível nem sempre parecem compatíveis. No entanto, o futebol enquanto produto cultural e económico depende deste equilíbrio delicado entre oposição e respeito mútuo. Compreender este contexto é essencial para o ecossistema do futebol. É por isso que programas como o MBA Executivo em Futebol recentemente lançado pela Liga Portugal, bem como outros cursos promovidos por organizações líderes no futebol nacional em colaboração com universidades, são excelentes oportunidades para quem tem, ou pretende ter, responsabilidades no desporto. Com mais conhecimento, partilha e respeito mútuo, todos ganhamos.

Voltando ao ponto inicial que motivou este texto, ficam os votos para que a Liga Portugal e as restantes competições desportivas nacionais tenham muitos momentos de verdadeira rivalidade na próxima época.     

 Por: Rui Biscaia - Professor Catedrático de Gestão do Desporto, University of Bath, Reino Unido

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