RIVAIS, NÃO INIMIGOS
Recentemente, ao procurar informação sobre o campeonato do
mundo de futebol que está a decorrer, deparei-me com uma notícia sobre a final
da Conference League que salientava o melhor e o pior da
rivalidade no desporto. Por um lado, a alegria de centenas de adeptos a
celebrar cordialmente a presença das suas equipas na final. Por outro, os
confrontos violentos entre alguns adeptos na véspera do jogo. Esta realidade
deve fazer-nos pensar sobre qual o desporto, e em particular o futebol, que
queremos.
As rivalidades são fundamentais no desporto, mas podem ser
prejudicais quando são incompreendidas e mal geridas. Uma rivalidade é uma
relação competitiva intensa entre duas ou mais equipas, atletas, clubes ou
adeptos. Caracteriza-se por comparação constante e enviesamento em relação ao
‘nosso’ grupo. Por exemplo, favoritismo do ‘nosso’ clube e preconceito em
relação ao ‘outro’.
A proximidade geográfica, competição frequente, equilíbrio
histórico, disputas por títulos, episódios marcantes, perceção de injustiças,
diferenças culturais ou competição por talento podem atenuar ou intensificar as
rivalidades. Assim, um clube pode ter rivais com graus distintos de intensidade
e a rivalidade pode ser assimétrica. Ou seja, um clube pode considerar outro
como o principal rival sem que esse sentimento seja recíproco.
No desporto, as rivalidades têm imensas vantagens. Para os
adeptos, aumentam a emoção, o interesse nos jogos e a identificação com o
clube. Para os clubes, ajudam a aumentar as assistências e receitas associadas,
o engagement dos adeptos e o valor comercial das competições.
Com isto aumenta-se o valor também para as televisões, patrocinadores e
outros skakeholders.
Sem rivalidade, o desporto perde intensidade emocional e
capacidade mobilizadora. Mas quando um rival é transformado num
inimigo, todos perdem. Insultos, confrontos físicos e verbais, vandalismo e
outros comportamentos antissociais fazem os clubes pagar multas avultadas.
Estas situações prejudicam também a imagem de clubes, ligas e patrocinadores,
afastam famílias e adeptos moderados, penalizam o ambiente nos eventos e
momentos envolventes, e reduzem valor para os stakeholders.
O desporto é, por natureza, um fenómeno cocriado. Nenhum
clube produz futebol ou outro desporto sozinho. Os eventos implicam interação
entre equipas, adeptos, árbitros, ligas, comunicação social, patrocinadores e
outros stakeholders. A força de um clube depende, em larga medida,
da existência e da força do “outro”. Por isso, a competição dentro e fora do
campo deve andar de mãos dadas com a coopetição. Ou seja, os clubes
devem simultaneamente competir e cooperar para criar valor partilhado.
Os rivais não podem ser inimigos, pois um inimigo é uma
pessoa ou entidade que sente ódio, hostilidade e deseja mal ao ‘outro’ para lá
da competição desportiva. Esta ideia é contrária ao que o desporto deve ser. Um
rival não é inimigo, mas sim um cocriador de valor no ecossistema desportivo.
Além disso, as rivalidades ajudam a reforçar o sentimento de pertença dos
adeptos e a definir identidades coletivas. A vitória perante um rival tem mais
significado, um dérbi sem tensão simbólica tem menos interesse e um campeonato
sem rivalidades perde valor.
Importa assim que a rivalidade, no seu verdadeiro sentido,
seja promovida e cuidadosamente gerida. Clubes, ligas, treinadores, atletas,
comunicação social e patrocinadores têm responsabilidade na forma como
comunicam antes, durante e após os eventos. É importante reconhecer paixão,
história e diferenças, mas também mostrar respeito pela competição, ter
responsabilidade e consciência do papel do desporto na sociedade.
Naturalmente, o cenário ideal e o possível nem sempre
parecem compatíveis. No entanto, o futebol enquanto produto cultural e
económico depende deste equilíbrio delicado entre oposição e respeito mútuo.
Compreender este contexto é essencial para o ecossistema do futebol. É por isso
que programas como o MBA Executivo em Futebol recentemente lançado pela
Liga Portugal, bem como outros cursos promovidos por organizações líderes no
futebol nacional em colaboração com universidades, são excelentes oportunidades
para quem tem, ou pretende ter, responsabilidades no desporto. Com mais
conhecimento, partilha e respeito mútuo, todos ganhamos.
Voltando ao ponto inicial que motivou este texto, ficam os
votos para que a Liga Portugal e as restantes competições desportivas nacionais
tenham muitos momentos de verdadeira rivalidade na próxima época.

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